8.8.12

vertigens no andaime

hoje
o homem contuso
passou algumas horas
a trabalhar em cima
de um andaime móvel

nada muito alto
dos olhos ao chão seriam talvez
seis metros

já de pés na terra
o homem contuso
recordou-se da passagem famosa
de um certo livro
em que o seu autor afirma
que vertigem
não é o medo de cair
mas sim
o desejo da queda
da qual
aterrorizados
nos defendemos

o homem contuso
não se revê na passagem

em cada vertigem sentida
no topo do andaime
por muito que rebusque
não encontra limalha
desse desejo
pela queda

é coisa diferente a vertigem
não é combate entre o desejo de cair
e o medo da queda

é antes impulso
que pressente
a insegurança daquilo que é sólido

é antes impulso
primordial
da dialéctica

um duelo de opostos que poderá colocar-nos em risco

o desejo
ainda que de cair
é mais simples

é acção
e consequência

ou
não acção
e consequência

vertigem
é verificação ímpeta do grau de solidez
no limiar do perigo

controlando o pânico que gera
faz-se o necessário à construção da tranquilidade
luta histórica
daqueles que andam
em cima de andaimes


JF 07072012